O funcionamento do tempo no combate


É de comum acordo no ocidente que um soco é preparado em um passado em direção ao futuro. Não é raro que essa afirmação gere consenso nos ouvintes desprevenidos. Em um passado planejamos socar algo no futuro, podendo esse algo ser uma pessoa ou um objeto.

A perspectiva popular que vê um golpe como o desdobramento de um "planejamento"(socar) em um "resultado"(acertar) contém vários problemas. Estes vem sendo pouco valorizados no mundo das artes marciais.

O tempo passado (preparar o soco) que escoa em direção ao tempo futuro (acerto ou erro) supõe uma visão específica de um sujeito que se põe a pensar sobre o tempo.

O tempo visto por um sujeito que o coloca em um fluxo que se desdobra, cria a perspectiva do que chamamos de "escoamento do tempo" (fluxo passado -> presente -> futuro). Podemos comparar esse ponto de vista sobre o tempo com a visão de um rio que originou em uma geleira antes de se transformar em água.


Porém, se o sujeito coloca o tempo do golpeamento na perspectiva do escoamento, este sujeito golpeará algo que não não existe mais, já que idealizou um futuro que no momento do golpe deixou de existir. O golpe sempre será dado no presente. É um duplo engano suportar a "perspectiva do escoamento": engano (1) que é possível adivinhar o futuro, e engano (2) que o momento presente em que se planeja o sucesso estará esperando no futuro se ele for bem planejado.

O planejamento do golpe afasta-se do momento em que o combate acontece para no combate se perder. Planejar só constituirá um golpe bem sucedido em um adversário com a ajuda do acaso gerado por um adversário que também estiver planejando (também entregando-se ao acaso). O alvo nunca poderá ser acertado, sem ser obra do acaso, enquanto quisermos acertar o alvo, ao menos que ele seja um objeto estático.

Mohamed Ali desviando de um golpe
Para acertarmos o alvo é necessário uma fusão entre o sujeito que golpeia e o que é golpeado em um único momento, onde o golpe deferido será o desdobramento do potencial da situação. Cabe ao combatente intervir no potencial e estar aderido à relação entre os combatentes.

Portanto, o momento em que o golpe encontra o alvo só é eficiente se gerado a partir do relacionamento com o outro sujeito a ser golpeado. O Chi Sau (黐手) é a prática do Ving Tsun que ensina através do corpo a estabelecer uma relação de unidade com o outro. "黐" diz respeito a algo pegajoso, enquanto"手", a entrar em relação, podendo sendo traduzido por mim como: "agarrar-se de forma pegajosa" ou "entrar em uma relação de aderência".

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Bruce Lee e Ip Man praticando Chi Sau

A Vida Kung Fu, 心法 (Sam Faat), é a oportunidade que temos de vivenciar várias relações de aderênciacom os outros praticantes de Ving Tsun no cotidiano. O Si Fu é o elemento central mais capaz de atuar no potencial das situações de aderência em uma escola de Ving Tsun, sendo aquele que se comprometeu de maneira vitalícia em prover vida Kung Fu para seus discípulos.

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Um exemplo, dentre muitos outros, de vida Kung Fu.
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Si Fu Julio Camacho preparando o antigo Núcleo Jacarepaguá em 2013

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